Mama-cadela (Brosimum gaudichaudii Trécul)

MAMICA DE CADELA

FAMÍLIA: Moraceae.

 

ESPÉCIE: Brosimum gaudichaudii Trécul.

 

SINONÍMIA: Brosimum glaucifolium Ducke.

 

NOMES POPULARES: Algodãozinho, amoreira-do-mato, apé, apê, apê-do-sertão, boilé, bureré, chiclete-do-cerrado, conduro, conduru, fruta-de-cera, inhará, inharé, mamacadela, mamica-de-cachorra, mamica-de-cadela, maminha-de-cachorra (Braga, 1960; Correa, 1984; Almeida et al., 1998; Lorenzi, 1998).

 

Mamacadela é o nome mais utilizado e está associado à disposição dos frutos nos ramos, que lembram a disposição dos mamilos de uma canídea.

 

CARACTERÍSTICAS BOTÂNICAS: B. gaudichaudii se refere inicialmente a um arbusto escandente. Contudo, à medida que cresce, atinge porte arbóreo, geralmente árvores baixas, com 4 até metros, porém encontra-se descrito na literatura, árvores de até 10 metros de altura (Correa, 1984; Palhares et al., 2007a). O desenvolvimento dessa planta é bastante peculiar. Após a germinação, ainda no primeiro ano de vida, desenvolve-se um espessamento hipocotiledonar, que dará origem a um xilopódio no indivíduo adulto (Palhares; Silveira, 2007). O xilopódio tem o formato de uma ‘coroa de raiz’ e emite um ou mais caules aéreos (troncos), inibindo assim, o tronco mais velho de produzir novos caules (Palhares et al., 2007b) ). O tronco, de casca cinza e delgada, é reto, dotado de copa ovalada e rala. As folhas são glabras na face superior e pubescentes na face inferior, alternas, simples, com ápice obtuso a acuminado e nervuras broquidódromas (‘lacinhos’ nas nervuras marginais). O tamanho foliar é muito variável; um mesmo indivíduo pode produzir folhas pequenas e folhas grandes (Cruz, 1964). As inflorescências são glomérulos axilares, bracteados, pedunculados, cada uma com 30 a 100 flores e que se desenvolvem ao longo dos ramos. A flor feminina ocupa posição central, as masculinas se dispõem ao redor (Romaniuc-Neto et al., 2014). Os frutos são agregados bacoides, comestíveis, com até 2cm em diâmetro, alaranjados quando maduros, globosos, de superfície verrucosa. Cada fruto contém uma semente elipsoide, achatada, de cor esbranquiçada ou marrom claro, testa fina e lisa (Sociedade Botânica do Brasil, 1992). As sementes com endocarpo apresentam em média, 16mm de comprimento, 13mm de largura, 43,4%, com peso médio de 1000 sementes de 1526g. A raiz é pivotante e cresce rapidamente. Aos oito meses após a germinação atinge 50cm de profundidade e, quando adulta, pode alcançar mais de 4 metros. Há poucas raízes laterais, cada qual apresentando crescimento horizontal de mais de 3 metros. Recobrindo a raiz principal e as secundárias há várias radicelas (Palhares et al., 2007a, b). A casca das raízes é espessa (podendo atingir até um centímetro), lactescente, apresenta cor alaranjada e marrom, com agradável odor aromático, mas que pode se tornar nauseante em caso de exposição prolongada (Toursarkissian, 1980).

HABITAT: Brosimum gaudichaudii é o único representante do gênero no Cerrado, ocorrendo nos domínios fitogeográficos deste bioma e nas vegetações de transição entre o Cerrado, Caatinga, Floresta Amazônica, Pantanal e Mata Atlântica (Braga, 1960; Lorenzi, 1998; Romaniuc-Neto et al., 2014). A frequência varia de esparsa a elevada com dispersão descontínua, particularmente nos terrenos arenosos e bem drenados (Ratter et al., 1996).

 

Fitoquímica e farmacologia: O interesse farmacológico desta espécie está voltado para a casca das raízes, que acumula grandes quantidades de furanocumarinas, em particular, o psoraleno e o bergapteno (Pozetti; Bernardi, 1969). Enquanto as folhas, látex e casca do caule apresentam apenas traços destes compostos, na casca das raízes a concentração de furanocumarinas pode representar até 3% do peso seco. O psoraleno e o bergapteno são os compostos identificados em maiores concentrações, mas há também outras cumarinas, como a xantiletina, a luvangentina e a gaudichaudina (Cardoso et al., 2002; Pozetti, 2005).

 

A extração de furanocumarinas é feita de modo relativamente simples, com soluções hidroalcoólicas (Pozetti, 2005). Mesmo que extratos vegetais ricos em furanocumarinas venham sendo usados desde épocas remotas, há a necessidade de uma avaliação de riscos e toxicidade mais precisa, uma vez que tratamentos mal conduzidos, principalmente os que envolvem a ingestão desses extratos, podem provocar lesões aos órgãos internos e na pele, ao invés do controle do vitiligo, provocar queimaduras profundas (Leão et al., 2005).

 

O vitiligo é uma doença autoimune na qual os melanócitos são inibidos de produzir melanina, o que gera regiões despigmentadas na pele (Steiner et al., 2004). Os psoralenos presentes em B. gaudichaudii são usados como parte de um conjunto mais amplo de terapias, chamadas terapias fotodinâmicas, nas quais um fármaco é ativado por luz. Uma das modalidades de terapias fotodinâmicas é a PUVA-terapia (Psoraleno + UVA), que combina o uso de psoralenos tópicos ou ingeridos, seguidos de exposição ao sol ou à luz UVA (ultravioleta) artificial. Não se conhece precisamente o modo de ação dos psoralenos sobre o vitiligo, mas, pelo menos, 30% dos pacientes apresentam considerável melhora com esse tipo de tratamento (Musajo et al., 1966; Steiner et al., 2004).

 

Além do efeito como terapia fotodinâmica, os extratos de raízes apresentam também forte atividade antihelmíntica in vitro contra nematoides parasitas humanos, como estrongiloides e os ancilostomídeos (Pozetti, 2005). Concentrações de psoraleno tão baixas como 0,001 g (m/V) foram suficientes para inibir o desenvolvimento dessas larvas. Assim, a despeito de serem substâncias fototóxicas, infere-se que o acúmulo desses compostos nos órgãos subterrâneos seja uma defesa química contra pragas do solo. Outro estudo sugere que as furanocumarinas apresentam potencial mutagênico, em ensaios in vitro (Villegas et al., 1997).

 

PARTES USADAS: O principal produto são as raízes, utilizadas de forma medicinal. Os frutos são utilizados na alimentação e a planta inteira pode ser empregada em paisagismo.

Toxicidade/Contraindicações Não há relatos de toxicidade e nem de contraindicações.

 

Dosagem e Modo de Usar Rasura (Uso tópico): Nos casos de vitiligo ou outras manchas na pele

 

- espremer 1 xícara (chá) deste material e diluir em 1L de água, em decocção, passando-se, após repouso de 24horas, 2 vezes ao dia nas partes afetadas em dias alternados.

 

- Extrato seco: 300 a 400 mg ao dia.

 

- Extrato glicólico: 5% a 15%. - Pó: 500 mg duas vezes ao dia.

 

- Tintura: 3 a 5%. ATENÇÃO: evitar sol excessivo nos dias das aplicações. Referências Bibliográficas AFFONSO, M.C.G.; NUNES, P.H.M.; COSTA, S.C. Atividade anticideptiva nos extratos aquosos de Brosimum gaudichaudii. Teresina-PI: Núcleo de Pesquisa em Plantas Medicinais, Departamento Biomédico, CCN-FUFPI, 1991 ÁVILA, L. C. Índice terapêutico fitoterápico – ITF. 2 ed. Petrópolis, RJ, 2013 LORENZI, H.; MATOS, F. J. A. Plantas medicinais no Brasil: nativas e exóticas cultivadas. 2 ed. Nova Odessa, SP: Instituto Plantarum, 2008.

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