Sangra d'agua - (Croton urucurana Baill.)

Sangra-d’água

FAMÍLIA: Euphorbiaceae.

 

ESPÉCIE: Croton urucurana Baill.

 

SINONÍMIA: Croton draconoides Müll.Arg.; C. paulinianus Müll.Arg.; Oxydectes pauliniana (Müll.Arg.) Kuntze; O. urucurana (Baill.) Kuntze.

 

NOMES POPULARES: Capixingui, licurana, lucurana, pau-de-sangue, sangra-d’água, sangra-da-água, sangue-da-água, sangue-de-drago, sangue-de-dragão, tapexingui, tapixingui, urucuana, urucurana. Em espanhol é conhecido como sangre-de-grado, sangre-de-drago e tapucharo (Di-Sapio; Gattuso, 2013). Os nomes “sangra-d’água” ou “sangue-de-dragão” referem-se à casca da planta, que quando ferida, libera exudato de coloração vermelho-sangue e, após a “sangria” do látex, ocorre o acúmulo de goma no local do corte (Peres et al., 1997; Milo et al., 2002).

 

CARACTERÍSTICAS BOTÂNICAS: Árvore de 7 a 14 metros de altura (Figura 1), copa aberta e tronco claro, de 25-35cm de diâmetro. Os ramos jovens são tomentosos, os adultos pubérulos, ferrugíneos e com tricomas estrelados. Folhas simples, medindo entre 7,5- 13,5cm x 5-10,5cm, palmatinervas, cordadas a oval-lanceoladas (Figura 2), membranáceas, face adaxial ferrugíneo-tomentosa, nas folhas jovens, pubérula nas adultas, face abaxial tomentosa, tricomas estrelados, alvacenta, ferrugínea nas nervaduras, margem inteira, base cordada ou auriculada. Ápice acuminado, pecíolo de 6-9 cm de comprimento, tomentosos, com 2 a 4 glândulas pateliformes no ápice, estípulas com 1,0-1,5cm de comprimento, foliáceas (Lorenzi, 1992; López, 2010). As flores são diclinas, pequenas, apresentam coloração amarelo-esverdeada e dispõem-se em inflorescências racemosas (Figura 2); monoclamídeas ou com corola inconspícua, grande quantidade de pólen seco, ausência de guias de néctar e número reduzido de óvulos no ovário. Ocorrem três tipos de inflorescências: somente masculinas, flores femininas e masculinas e, mais raramente, aquelas com flores masculinas e apenas uma flor feminina na base da inflorescência (Pires et al., 2004). O fruto é seco, capsular, separa-se em 3 cocas, uniloculadas, com uma semente por lóculo, dispostas longitudinalmente. O endocarpo é seco e lignificado. A coloração do fruto maduro é castanha, com superfície rugosa, coberta de tricomas estrelados, com cerca de 5,0mm de diâmetro e 4,0mm de altura. A semente é ovada, albuminosa, coriácea, com carúncula castanho-clara pouco desenvolvida, hilo visível na base e rafe bem marcada longitudinalmente sobre a face plana da semente. A testa é pouco variegada, com colorações que variam do castanho ao preto, opaca. Medem em média 3,2mm de comprimento por 2,7mm de largura. O embrião é axial, espatulado, cilíndrico, curto, com dois cotilédones foliáceos arredondados, grandes e com base cordiforme. O endosperma, do tipo oleaginoso, envolve o embrião totalmente, sendo rico em óleos graxos e cristais do tipo drusa (Paoli et al., 1995).

 

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA: Encontra-se distribuída por quase todo o Brasil, nas regiões Norte (Amazonas, Tocantins, Acre), Nordeste (Maranhão, Bahia, Alagoas), Centro-Oeste (Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul), Sudeste (Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro) e Sul (Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul) (Cordeiro et al., 2014), além do Uruguai e Argentina (Lima et al., 2008; Di-Sapio; Gattuso, 2013).

 

HABITAT: Ocorre em formações secundárias, a exemplo de capoeiras e capoeirões, onde chega a formar populações quase puras (Pires et al., 2004; Sorreano et al., 2011). Formam maciços em terrenos instáveis e aluviões às margens dos rios e, embora com menor frequência, também em clareiras e bordas de mata em terrenos secos de encosta (Lorenzi, 1992; Durigan et al., 2002; Alves et al., 2009; Sorreano et al., 2011). Crescem em solos calcários, rochas ígneas e adaptam-se a diversas temperaturas e níveis de umidade, o que permite sua ocorrência em diferentes tipos de vegetação (Di-Sapio; Gattuso, 2013).

 

USO ECONÔMICO ATUAL OU POTENCIAL: Na medicina popular, o látex (Figura 3), cascas e folhas são utilizados, de diversas formas, para tratar desordens do aparelho genital feminino (corrimento, feridas, inflamação e cisto) e masculino (inflamações na próstata). Também há relatos de sua utilização para tratar gastrite, úlceras gastro-intestinais, hemorroidas, hematomas, infecções cutâneas, dores nas pernas, reumatismos, depurativo do sangue, anti-hemorrágico, antisséptico e analgésico. López (2010) relata ainda o emprego das diversas partes da planta no tratamento de aftas bucais, micose, bronquites, asma, anemia, transtornos renais e dor de dente. As cascas são limpas e fervidas e o decocto é utilizado para os banhos. O saber popular recomenda que a retirada da seiva das cascas deva ser feita nas primeiras horas da manhã, preconizando-se a parte da árvore que fica voltada para o sol nascente (Peres et al., 1997; 1998; Gurgel et al., 2001). A madeira apresenta densidade de 0,83g/cm3, resistente, dura, e de média durabilidade quando exposta. É própria para a construção de canoas, obras hidráulicas, obras externas, dormentes, esteios, carrocerias, carpintaria e marcenaria. Sua madeira também pode ser utilizada na confecção de bóias para redes de pesca. Também pode ser empregada na arborização em geral e como melífera (Lorenzi, 1992; Pires et al., 2004). No entanto, além do uso medicinal, a grande importância da espécie está na sua utilização em reflorestamentos e recuperação de áreas degradadas, como sombreadora de espécies mais tardias, especialmente na composição de matas ciliares, em solos secos, mesmo em regiões de cerradão (Sorreano et al., 2011). A espécie ainda apresenta potencial para ser utilizada na arborização urbana e como melífera. Fitoquímica: Entre os componentes majoritários isolados em diferentes partes da planta (látex, folha e cascas) estão a catequina, galocatequina, epigalocatequina e proantocianidinas de diferentes graus de polimerização; já entre os compostos minoritários estão o alcaloide taspina, um lignano denominado dimetilcedrusina e diterpenos variados, como o ácido hardwickiico, bicantriol, crolequinol, ácido crolequínico, korberina A e B (Di-Sapio; Gattuso, 2013). Das cascas foram isolados ácido acetilaleuritólico, catequina e galocatequina, esteróis (β - sitosterol, estigmasterol, campesterol e β – sitosterol glucósido), diterpenos (sonderianina) (Peres et al., 1997; 1998; Oliveira et al., 2008), 12-epibarbascoato de metila e o diterpeno clerodano 3-oxo-12-epibarbascoato de metila (Pizzolatti et al., 2013). Já as folhas, são ricas em sesquiterpenos, principalmente germacreno-D (15,2%) e biciclogermacreno (36,4%) (Simionatto et al., 2009). O principal componente do látex é o polissacarídeo fucoarabinogalactan. Contém também proteínas e açúcares, principalmente fucose, arabinose, galactose e pequenas quantidades de manose, xilose, glucose e ácidos urônicos (glucurônico e manurônico) (Milo et al., 2002). O óleo essencial extraído das cascas da planta contém em maior quantidade borneol (14,7%), acetato de bornila (5,2%), cadina-4, 10-(14)-dien-1α-ol (14,7%), sesquicineol (10,5%) e γ-gurjuneno epóxido (5,4%), α-bisabolol (38,3%), α-eudesmol (9,3%) e guaiol (8,2%) (Simionatto et al., 2007; 2009).

 

Farmacologia: O látex apresenta atividade anti-inflamatória, analgésica (Peres et al., 1997; 1998), antidiarréica e antidisentérica (Gurgel et al., 2001; 2002a,b), gastroprotetora (Cordeiro et al., 2012), anti-hemorrágica (Esmeraldino et al., 2005). Propriedades antimicrobianas (Peres et al., 1997; Gurgel et al., 2005; Oliveira et al., 2008) e antioxidante, sendo estas mais eficazes, quando é utilizado o óleo essencial extraído do látex (Simionatto et al., 2007; 2009). Silva et al. (2009), relatam atividade inseticida das cascas do caule de C. urucucara sobre larvas de Anagasta kuehniella. A presença de atividade antibacteriana no látex seco e in natura e nos extratos obtidos de diferentes partes da planta de C. urucurana, indica que os princípios ativos são de natureza diferente e distribuem-se de modo não uniforme nas diferentes partes vegetais. Quando se avalia a atividade antibacteriana dos látex e extratos de diferentes polaridades e farmacógenos, observa-se que os látex apresentam espectro de ação e potência maiores que os extratos obtidos da entrecasca e folhas (Oliveira et al., 2008; López, 2010). Toxicologia: As inflorescências podem causar alergias e irritação na pele (Rieder et al., 2011).

 

PARTES USADAS: O látex é o principal produto empregado na medicina tradicional, no entanto relatos mencionam a utilização medicinal das folhas e também das cascas.

 

 

ASPECTOS ECOLÓGICOS, AGRONÔMICOS E SILVICULTURAIS PARA O CULTIVO: Árvore decídua, heliófita, pioneira, seletiva higrófita, característica de terrenos muito úmidos e brejos, principalmente da floresta latifoliada semidecídua. Tolera bem encharcamento e inundações por um período de até 16 dias. Espécie de crescimento rápido e ciclo de vida curto, que está em constante regeneração (Alves et al., 2009; Sorreano et al., 2011). Tolera geadas fracas (Lorenzi, 1992; Durigan et al., 2002). A floração ocorre durante um longo período do ano, iniciando em dezembro e se prolongando até junho (Lorenzi, 1992). A antese é noturna, entre 23:00 até às 4:00 horas e as flores duram três dias. Os visitantes florais são insetos das ordens Diptera, Odonata, Lepidoptera, Hemiptera e Hymenoptera, Apis mellifera é a espécie mais frequente, que procura as flores no início da manhã. A frutificação é quase simultânea à floração, e a maturação inicia em fevereiro e termina em julho (Lorenzi, 1992). Formam-se, em média, 30 frutos por inflorescência. O fruto é seco, capsular, com deiscência explosiva elástica e com semente ovada albuminosa (Pires et al., 2004). A dispersão dos frutos pode ocorrer tanto por deiscência explosiva como por hidrocoria (Paoli et al., 1995). Produz anualmente grande quantidade de sementes viáveis. Cada quilo de sementes possui cerca de 120.000 unidades (Lorenzi, 1992). A germinação ocorre quando as sementes apresentam coloração cinza e não há a necessidade da aplicação de tratamentos pré- -germinativos, quando recém colhidas (Scalon et al., 2012). Um dos problemas que afetam a germinação é que, embora os frutos produzam sementes em abundância, pouco depois da deiscência, estes são atacados por coleópteros do gênero Apion, que causam danos ao embrião, afetando drasticamente a germinação (Lima et al., 2008). A forma de exploração atual é através de extrativismo e, em alguns casos, manejo sustentável de populações (Silva; Porto-Gonçalves, 2008). Embora seja uma espécie muito comercializada em feiras livres do Brasil Central (Lós et al., 2012), não há registros de cultivo da espécie.

 

Referências Bibliográficas

 

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